Projecto de Investigação
MATERIALIDADES DOS MEDIA & ESTÉTICA
As materialidades da comunicação são, nas palavras de Friedrich Kittler, talvez o maior enigma moderno [1]. Investigar as materialidades dos media e a sua relação com a estética apresenta- se, pois, como proposta inequivocamente prioritária. Trata-se de fazer um mapeamento das materialidades dos media e do seu impacto sobre a perceção, especialmente naquilo que diz respeito ao gosto e ao seu juízo, ou seja, ao plano estético.
Este projeto parte do que consideramos ser o acontecimento fundamental do nosso tempo, nomeadamente a expansão quase ilimitada da técnica a todos os domínios da vida e da experiência. De facto, o lugar entre a natureza e o domínio humano foi ficando cada vez mais preenchido pelos avanços da técnica e por uma tecnologia que a todo o momento reconfigura o seu discurso sobretudo nas novidades e nas diferenciações energéticas. Este lugar é então um lugar em constante transformação, móvel, afastando cada vez mais o humano de uma situação natural. Hoje, a quase totalidade do conhecimento que temos sobre a natureza só pode ser entendido a partir de um ponto de vista técnico, pois é este ponto de vista que codifica e descodifica as proposições naturais e a perceção.
Ultrapassando a linguagem e o próprio discurso, o objeto técnico conheceu uma evolução sem precedentes: de objeto mecânico para a sua materialidade comunicativa e operativa, de instrumento a máquina e finalmente ao dispositivo enquanto sistema geral - incluindo a passagem do analógico ao digital, que aperfeiçoou exponencialmente as capacidades de armazenamento, processamento e transmissão da informação. Neste sentido, pode afirmar-se que a crítica da razão se pode transformar, hoje, numa crítica dos media [2]. Há impulso totalizante no seio da própria tecnologia digital: não se limita à reprodução ou reciclagem infinita daquilo que é reproduzido, mas engloba também uma abrangente interdependência social. Se na primeira revolução industrial se visavam sobretudo os meios de produção e o valor de uso, na segunda produz-se tanto o produtor como todo o seu contexto social. A passagem de um a outro será um dos elementos que este projeto procura dar conta: tudo é hoje uma estrutura medial e a sua materialidade importa, como bem demonstrou Luhmann e Kittler com ele.
O projeto centra-se então na dimensão estética do impacto dos media, que juntamente com a dimensão ética constituem os dois grandes pilares para entender a experiência contemporânea. De imediato, reconhece-se que o objeto artístico partilha com o objeto técnico o facto de ser uma unidade integrada de sentido, uma unidade que não concerne simplesmente a sua perceção direta, mas que envolve a totalidade do mundo da experiência, jogando livremente com as fronteiras e regras que o delimitam. Mas não só o objeto de arte nos preocupa, preocupa-nos também o poder determinar como a mediação implica sempre um impacto percetivo, tenha ou não um impacto no objeto tido como ‘obra de arte’. A par de uma crítica da medialidade, corre sempre uma aproximação estética, lato sensu.
Mas, se algo define o nosso tempo, é precisamente a dificuldade de o definir. A aparente crise da modernidade em relação às suas aporias internas expressa-se visivelmente na incapacidade das grandes categorias para apreender, atualmente, a experiência historicamente constituída. Esta situação estende-se também à dimensão estética, com a ruína de todos os critérios que norteavam a criação em arte no passado, e de onde um único princípio parece emergir: a abertura total das possibilidades. Sob o imperativo do novo e a ideologia da abertura total, o facto é que a atual revolução tecnológica tende para a paralisia total, no sentido em que canaliza qualquer estrutura de pensamento e ação livre para as estruturas que a própria materialidade da tecnologia dos media auto-desenha. A dificuldade em assumir uma posição artística e científica, ou seja, compreensiva, prende-se sobretudo pela invisibilidade das estruturas desta revolução. No entanto, os seus substratos materiais são contraditórios e a consequência consiste no facto da crescente automatização de todos os domínios da experiência abranger também os da produção: um ritornello que nos propomos dar conta desde um ponto de vista teórico. Se os paradigmas tecnológicos que os artistas disseminaram ao longo das últimas décadas somente os levaram mais ao fundo das estruturas do poder, é hoje essencial pensar não apenas na determinação dos produtos artísticos, mas também na forma das próprias modalidades de produção.
Para abordar estas questões, o projeto encara a história não como resultado, mas como um complexo de problemas, a debater num ciclo de conferências internacional e a aprofundar com a edição de livros, onde se procura dar conta dos problemas levantados desde o ponto de vista da música, literatura, poesia, teatro ou performatividade, as suas ramificações com a técnica.
Estamos convictos de que não pode haver novas formas de arte sem uma nova compreensão do mundo, e que, como dizia Agamben, “a arte de viver é a capacidade de mantermos uma relação harmoniosa com o que nos escapa” [4].
O projeto pretende ser um mapa da relação entre o ato criativo e os meios que o possibilitam; ora não há ato criativo sem pensamento, como bem defendeu o físico David Bohm. Só na abertura do reportório − e por isso da necessidade do seu elencar, a saber, o objeto deste projeto de investigação − é que podemos agir criativamente. Pensar é criar ao fazer e é dando conta dos meios que possibilitam a criatividade que podemos também pensar e criar ao mesmo tempo. O nosso princípio foi aquele traçado já por Bohm e que não tem recebido em Portugal, e um pouco esbatidamente, na Europa, a atenção devida. O financiamento a este projeto pode resumir-se na “fé” sobre as seguintes premissas de Bohm, premissas que muito contribuíram no campo das ciências biológicas para o avanço no conhecimento da forma como o ser humano age, pensa e se comporta, porque os três não são o mesmo, mas surgem no mesmo local: na estrutura percetiva do humano, na estética, na orientação incorporada do pensar e agir, num comportamento determinado. Diz assim David Bohm: «Mas, afinal de contas, durante milhares de anos as pessoas foram levadas a acreditar que tudo pode ser obtido se apenas se tiver as técnicas e métodos corretos. Que o que é preciso é ter consciência da facilidade com que a mente desliza confortavelmente em redor a este antigo padrão. Há coisas que podem ser conseguidas através de técnicas e fórmulas, mas a originalidade e a criatividade não estão entre elas. O ato de ver isto profundamente (e não apenas verbal ou intelectualmente) é também o ato em que a originalidade e a criatividade podem nascer» [5].
[1] Kittler, F. (2013) A relação sinal-ruído. in: “A verdade do mundo técnico: ensaios sobre a genealogia da atualidade”. Coleção arte físsil, Contraponto, 2017
[2] Siegert, B. (2015) Cultural Techniques. Grids, Filters, Doors, and Other Articulations of the Real . New York: Fordham University Press
[3] Siegert, B. & Maldonado, T. (1997). Critica della ragione informatica. Pisa: Feltrinelli[4] Agamben, G. (2010) Nudities. Stanford: Stanford University Press
[5] Bohm, D. (1998) On Creativity.New York: Routledge, p. 18.
Equipa
Investigador Principal:
João Manuel Marques Carrilho (Jonas Runa)
Membros da Equipa:
José Gomes Pinto
Teresa Maia e Carmo
Inês Marques
Luís Cláudio Ribeiro
Joana Bicacro
Manuel Bogalheiro
Consultores:
Domingo Hernández Sánchez (Universidad de Salamanca)
Johan Siebers (Middlesex University London)
Apoios
CICANT - Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias
Universidade Lusófona